Friday, November 7
Inferno #235: Neve.
Bem podes chorar, porque a neve veio finalmente, e agora vês que desapareci. Não sou eu, sou apenas uma enorme cobertura de açucar gelado.
Wednesday, October 8
Inferno #234: A desconstrução pessoal - a sinceridade.
Habituei-me a ser sincera quando me fartei de inventar coisas só para não dizer o que pensava. A sinceridade nunca me levou a lado nenhum: vivo no estado de aparvalhamento próprio de quem vive muito contente com a sua honestidade, mas espero, com toda a sinceridade, que esta sinceridade me valha pelo menos um bom murro no focinho.
Inferno #233: A desconstrução pessoal - a ironia.
Sou, por disciplinada aprendizagem, irónica. Acredito que a ironia é das melhores ferramentas pessoais que podemos desenvolver, sobretudo se atingir aquele ponto em que se confunde com a sinceridade. Sou ambas as coisas: irónica e sincera, a grande questão é saber quando sou uma coisa e quando sou a outra, é que, regra geral, ninguém o perecebe, e quando percebe, acha que está enganado,
Inferno #232: A desconstrução pessoal - o falso intelecto.
Sou, por pura parvoíce, um falso intelecto. Na verdade, conheço muito pouco, muito menos do que finjo conhecer. Muitas vezes, limito-me a acenar que sim com a cabeça e ajo como se não tivesse nada a acrescentar ao assunto, ou então construo um puzzle diferente com tudo aquilo que os outros acabaram de dizer.
Inferno #231: A desconstrução pessoal - a timidez.
Sou, por defeito e por hábito, uma pessoa tímida. Virei-me para dentro há anos, quando não sabia sequer pensar, e simplesmente habituei-me a ser assim. É confortável. É confortável pôr a minha cara misteriosa e perceber que alguém se rói para descobrir o quê de tão misterioso estou a pensar. Provavelmente, estarei apenas a pensar na corrente de ar que me atravessa o cérebro, entrando por um ouvido e saindo pelo outro.
Tuesday, October 7
Inferno #230: A desconstrução pessoal - a maldade.
Sou, por instinto, uma pessoa má. Sou-o por desporto, por diversão pessoal. Dá-me um certo gozo criticar alguém e ver a sua expressão aflita perante a percepção de que não é perfeito.
Thursday, September 11
Inferno #229: A boca.
Tens uma boca que me fixa nos olhos. Mexe-se demoradamente, lambe-se nos lábios de cor rosa carne e depois trinca-os. Tens uma boca carnuda, de onde por vezes espreita um cigarro. Mas a boca não se distrai, e continua a fixar-me os olhos, que já não conseguem desviar o olhar, porque se apaixonaram por ela.
Inferno #228: O demónio.
Tenho um pequeno demónio, adormecido dentro de mim. Nunca o deixo morrer: dou-lhe doces, umas gotas de limão e erva. Alojei-o num canto muito quente do meu corpo. Sirvo-me dele para alimentar o desejo que te tenho e para não deixar que o teu por mim desapareça.
Saturday, August 23
Inferno #227: O edifício.
Ia escalando os andares daquele edifício. Já estava tão lá em cima! Tinha dado a vida àquele maldito edifício com a sua maldita empresa, que não tinha maneira de falir. Tinha somado promoções, títulos, prémios. Agora, quase no topo do edifício, quase a chegar à almejada posição de "chefe de todos", sentia uma enorme vontade de descer o edifício em vez de o subir, de voltar àquele posto que tinha inicialmente, tão confortável em toda a sua insignificância e de trocar a austeridade de agora pela simplicidade de antes, talvez uma pequena família, com um cão ou um gato, em vez desta solidão que sentia agora... De que lhe valia chegar ao topo, se não tinha ninguém com quem comemorar? Não lhe valia de nada. Fechou os olhos e deixou-se cair no ar.
Inferno #226: A doença.
Sabemos da doença, sabemos de como te corrói de formas invisíveis, sabemos que não podes fazer, ver e comer certas coisas. Ainda assim, pomos essas coisas ao teu alcance, num gesto de profundo carinho - não queremos que te sintas privado de nada.
Carinho, ou vontade de te ver desaparecer o mais depressa possível?
Carinho, ou vontade de te ver desaparecer o mais depressa possível?
Inferno #225: tomar conta.
Por que é que tomamos conta de alguém? Por que é que esperamos que em troca tomem conta de nós? Somos mesmo assim tão ingénuos?
Friday, July 11
Inferno #224: A luta
Tinhas um cheiro a fruta madura. Queimavas-me com a língua e os braços, e eu afastava-te bruscamente, para tentar arrefecer, respirar. Abominava isso em ti, esse hábito de chegar e ocupar todo o território com o teu corpo - dizias que era «envolvência», que eu não sabia apreciar a tua fabulosa «envolvência».
Não era «envolvência», era «viscosidade». Mas confesso que já lhe sinto a falta...
Não era «envolvência», era «viscosidade». Mas confesso que já lhe sinto a falta...
Inferno #223: Aniversário
Triste é fazer anos e ver que muitos dos teus amigos andam demasiado ocupados com a vidinha para sequer te darem 5 minutos do seu precioso tempo.
Parabéns para mim, foda-se, sou das pessoas mais porreiras que conheço!
Parabéns para mim, foda-se, sou das pessoas mais porreiras que conheço!
Tuesday, June 10
Inferno #222: Cinema.
Há filmes que, por melhores que sejam, só servem para nos mostrar o quão imperfeita e por realizar a nossa vida é. Só servem para nos mostrar que há quem viva muito mais que nós, não necessariamente por ter sido mais corajoso, mas apenas porque teve mais sorte. Muitas vezes, parte daquilo que somos resume-se a isso mesmo: a momentos de maior ou menor sorte.
Inferno #221: P.V.C.
Dizem que tens um coração de plástico: sem cor, textura ou sentimento. Nunca te conseguiram matar - apenas rasgar-te a casca.
Inferno #220: Fins.
Decidiram separar-se por uns tempos, porque «aquilo» não estava a resultar. Já o tinham feito uma vez: largaram-se por uma semana, porque a rotina os matava aos poucos. Mas desta segunda vez, tinham pensado mais sobre o assunto: ou a inércia do dia-a-dia acabava, ou aquela relação estava destinada a não existir.
Ao fim um mês, ela, mais impulsiva, percebeu que não sabia viver sem ele. Estava certa de que, juntos, poderiam reanimar a relação - afastados assim como estavam é que não chegariam a lado nenhum. Falaram então durante longas horas. Ela pôs o coração bem ao alcance dele: aquele mês tinha-lhe feito ver que o amava, e que queria ficar com ele. Só não estava preparada para a resposta dele: aquele mês tinha-o feito ver precisamente o contrário - já não gostava dela, não iam reatar.
O mundo, as pessoas, perdem constantemente a sincronia...
Ao fim um mês, ela, mais impulsiva, percebeu que não sabia viver sem ele. Estava certa de que, juntos, poderiam reanimar a relação - afastados assim como estavam é que não chegariam a lado nenhum. Falaram então durante longas horas. Ela pôs o coração bem ao alcance dele: aquele mês tinha-lhe feito ver que o amava, e que queria ficar com ele. Só não estava preparada para a resposta dele: aquele mês tinha-o feito ver precisamente o contrário - já não gostava dela, não iam reatar.
O mundo, as pessoas, perdem constantemente a sincronia...
Wednesday, May 28
Inferno #219: Vôa-dores.
Somos traças com asas de celofane de muitas cores, a planar sobre os néons intermitentes de um velho parque de diversões.
Tuesday, May 27
Friday, May 9
Inferno #217: O surto.
Tenho fé que um dia enlouqueceremos todos. Somos loucos, somos todos loucos! Só assim se explica o ritmo a que vivemos - temos mesmo de estar loucos... É isto que sinto quando deito o meu corpo cansado e, depois de um sono insuficiente, acordo sentindo as pálpebras entontecidas, a fazer força para abrir, enquanto teimam em permanecer fechadas.
Inferno #216: O mercado de trabalho
Somos jovens, somos frescos, somos os melhores.
Tiramos bons cursos superiores. Trabalhamos. Entramos cedo, saímos tarde; corremos para completar todas as tarefas do dia. Somos paus mandados, somos sacos de boxe. Somos mercadorias: se não quisermos o trabalho, há-de haver outros macacos que o queiram (nós próprios somos esses macacos).
Em suma, somos putas: aceitamos fazer tudo, desde que nos paguem (e na maioria das vezes, mal).
Tiramos bons cursos superiores. Trabalhamos. Entramos cedo, saímos tarde; corremos para completar todas as tarefas do dia. Somos paus mandados, somos sacos de boxe. Somos mercadorias: se não quisermos o trabalho, há-de haver outros macacos que o queiram (nós próprios somos esses macacos).
Em suma, somos putas: aceitamos fazer tudo, desde que nos paguem (e na maioria das vezes, mal).
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