Thursday, November 24

Inferno #46: uma coisa parecida com paixão mas que nada tem a ver com ela.

Há dias lembrei-me do 'joão'.
Estive apaixonada de uma forma estúpida por ele.
Lembrei-me do (frequente, no meu caso) erro crasso de timing. Lembrei-me de ter caído de quatro por ele quando ele já não nutria o mínimo interesse por mim (sim, eu gosto sempre de ir atrás daquilo que é mais complicado).
Lembrei-me de me sentir estúpida, porque não há nada nele que eu queira num homem, só a sensação incrível de protecção e conforto que ele me conseguia (o pior é que continua a conseguir...) transmitir.
Lembrei-me de ter ficado a saber uns meses depois que uma amiga minha o andava a papar em segredo há umas semanas. Lembrei-me de me aperceber que todos os meus amigos já conheciam a situação há muito tempo. Lembrei-me de me ter sentido o palhacinho triste. Lembrei-me de ter passado dias inteiros a chorar, enquanto os meus amigos (aqueles que já sabiam da situação toda...) me enviavam mensagens do género "Força, há que ser forte!" ou "Não fiques triste"(Não, o que eu estava mais era alegre...).
Lembrei-me de ter precisado de falar com alguém mas não existir ninguém disponível.
Lembrei-me de todas as coisas foleiras e ridículas que, no meu delírio amoroso, disse sobre ele a outras pessoas.
Lembrei-me de pensar "E se eu não existisse!?".
Lembrei-me do poder que um pensamento e meia-dúzia de palavras tiveram sobre mim.

Enfim, apercebi-me, na altura, da efemeridade completa de um sentimento, da fealdade humana, da insinceridade de alguns, da boa vontade (impossível...) de outros. Apercebi-me que é possível viver numa redoma pequenina de cristal, aparte do mundo, onde o ar rareia cada vez mais. Eu vivi numa redomazinha de cristal, enquanto as pessoas ao meu redor me manuseavam com muito cuidadinho, pensando "pode ser que desta ela não acorde e não descubra o que se tem andado a esconder".

Claro que o voltei a ver, e vejo-o por vezes, mas o meu esforço para não gostar dele é tão grande, que acabo por perceber que é daquelas pessoas impossíveis de odiar.

Foi algo de muito forte, mas passou. Talvez se eu estivesse preparada para a situação, ela não me tivesse afectado tanto; talvez se não me tivessem escondido algumas coisas (tão importantes na altura...) durante tanto tempo eu não me sentisse tão presa a ele e a tudo o que temos em comum.

Há dias lembrei-me dele com tanto amor, que por momentos pensei ter voltado a cair na 'esparrela'. Acabei por perceber que é algo normal, não quer dizer que esteja outra vez apaixonada por ele.

É apenas um sentimento parecido com a paixão, mas que nada tem a ver com ela.

1 comment:

christiana said...

Oi, sou do Brasil e te achei nas estatísticas do meu site. Ao que parece, você pegou uma imagem lá na minha página (detalhe do "Grito" de Munch). Acasos felizes da Internet.
Adorei seus escritos. Eu também tenho cá meu João, às vezes real, às vezes imaginário, às vezes também oculto sob outros nomes (como eu digo num dos poemas: "amor, teu nome é João"...). Aqui dois exemplos:
http://www.novoaemfolha.com/arquivos/000212.html
http://www.novoaemfolha.com/arquivos/000136.html

Foi um prazer conhecê-la, volte sempre!
Um beijo.