Estes anos todos em que não estávamos juntos, mas que sentíamos as nossas respirações entrelaçar-se uma na outra, em que te torturava com as minhas aparições inesperadas nos teus cafés e bares, pensava que estava a criar uma dependência mútua. Mas não, afinal a pessoa forte em nós dois és tu. Afinal já tinhas ultrapassado o facto de te ter deixado sem grandes explicações.
Bom, voltemos para o teu dia e para a tua nova pessoa.
Para já, não consigo recuperar o ânimo. E tu, consegues recuperar o fôlego?
Friday, February 6
Wednesday, January 14
Inferno #249: Maçãs e corações.
Talvez fosses mesmo tu a tentar beijar-me, ou talvez fossem apenas maçãs e corações do sonho de ontem a viver nos meus bolsos vazios.
Inferno #248: O medo.
Percorre calmamente a espinha até chegar ao cimo das costas. Uma vez aí, espalha-se pelos ombros. O friozinho desce dos ombros para a barriga, que estremece. A sensação não é inédita, é apenas o medo de não saber o que vem a seguir, o medo de não saber se se é suficientemente bom para o que aí vem.
Tuesday, January 6
Inferno #247: O fim...quase.
Já não me fascinas, praticamente.
Ainda assim, há uma pequena memória tua a assobiar-me ao ouvido; essa ideia do que foste para mim em tempos, admito, continua a fazer-me engolir em seco, mas só um bocadinho...
Ainda assim, há uma pequena memória tua a assobiar-me ao ouvido; essa ideia do que foste para mim em tempos, admito, continua a fazer-me engolir em seco, mas só um bocadinho...
Inferno #246: Sonhar que se voa.
Na verdade, detestava sonhar que voava. O problema não era o sonho, mas sim acordar no dia seguinte: a boca muito seca, o coração a caminhar acelerado, a terrível vertigem que a mantinha inerte, presa à cama, e a lágrima que sentia ao roçar com a cara no tecido húmido da almofada. Nessas raras manhãs, sentia a dor excepcional que é saber que não se é livre.
Inferno #245: Enquanto dormias.
Enquanto dormias, desfazia cada palavra tua na minha boca, como chocolate. Quando acordaste desapareci, mas esse cheiro que ficou no teu quarto sou eu.
Inferno #244: Ser perfeito
Gostava de ter o toque do papel, o sabor da laranja, a cor de uma safira, o cheiro do mar, o corpo de uma árvore.
Talvez assim não me resistisses.
Talvez assim não me resistisses.
Friday, December 12
Inferno #243: semi-japonês
Sou uma planta de algodão
Abanada pelo vento
numa tarde húmida.
Desfaço-me ao sentir as gotas
Cair na minha cabeça.
Perco a beleza, perco a virtude.
Perdi-me.
Abanada pelo vento
numa tarde húmida.
Desfaço-me ao sentir as gotas
Cair na minha cabeça.
Perco a beleza, perco a virtude.
Perdi-me.
Inferno #242: dentista
à saída do dentista, na tarde mais cinzenta de que me lembro, pisava o passeio e era acompanhada pela minha cabeça, cortada, a rolar no chão
Inferno #241: Jogo de profissões.
Passámos muitos anos a olhar-nos nos olhos, a roçar narizes, a lamber lábios, a segredar histórias que eram já nem sei de quem.
Éramos psicanalistas, esquimós, gourmets, contadores de histórias. Podíamos ser tudo, porque éramos nós, e um validava toda e qualquer ideia do outro.
Agora repousamos numa curva de uma estrada secundária, onde nos perdemos porque acreditámos que éramos mesmo imunes a qualquer coisa...
Éramos psicanalistas, esquimós, gourmets, contadores de histórias. Podíamos ser tudo, porque éramos nós, e um validava toda e qualquer ideia do outro.
Agora repousamos numa curva de uma estrada secundária, onde nos perdemos porque acreditámos que éramos mesmo imunes a qualquer coisa...
Tuesday, November 11
Inferno #240: Matemática.
Quanto tempo é preciso para que duas pessoas sintam genuinamente falta uma da outra?
Monday, November 10
Inferno #239: Maioridade.
Tornava-se cada vez mais difícil esconder que o tempo passava, e ela continuava no mesmo lugar. Não acontecia nada de extraordinário, não havia explosões, apenas coisas pequeninas, mundanas. O cabelo que caía no Outono, a nuvem negra a pairar sobre a cabeça no Inverno, o cansaço e a vontade de sair da cidade para outro lugar, qualquer lugar. Não havia pessoas novas, apenas camisas, fatos e gravatas iguais. Ninguém lhe disse que seria fácil, mas nunca pensou que fosse tão difícil.
Saturday, November 8
Inferno #238: A casa.
Tenho uma casa pequena. Nela, o tecto tem a altura dos meus pés, e o chão dá-me pela cabeça. Não existem móveis, ou roupas, ou quadros, só o silêncio infinito. Entro nela, e tranco-me com uma chave de cinzas. Não há nada nesse nada, onde tecto e chão se cruzam e anulam. Só um cheiro de especiarias doces e enjoativas (cravinho e erva-doce). É a minha casa, onde entro sempre que quero.
Friday, November 7
Inferno #237: Mãos.
Essas mãos, aí em baixo, são as minhas ou as de outra pessoa?
Lembras-te que, há muitos anos atrás, éramos só um do outro, só nossos? Partilhávamos a comida, os bancos, os pensamentos e as músicas. Éramos as nossas mãos com que partíamos coisas aos pedaços, para nos alimentarmos.
Depois fiquei míope, deixei de te conseguir alcançar com as mãos e os olhos. Navegaste para muito longe, e quando voltaste não eras a mesma pessoa, já não te conseguia decifrar o pensamento; já não querias partilhar a tua comida comigo.
Agora que te toco, pois jazes no chão, e sei que estas são as minhas mãos, pergunto-me se também o saberás.
Lembras-te que, há muitos anos atrás, éramos só um do outro, só nossos? Partilhávamos a comida, os bancos, os pensamentos e as músicas. Éramos as nossas mãos com que partíamos coisas aos pedaços, para nos alimentarmos.
Depois fiquei míope, deixei de te conseguir alcançar com as mãos e os olhos. Navegaste para muito longe, e quando voltaste não eras a mesma pessoa, já não te conseguia decifrar o pensamento; já não querias partilhar a tua comida comigo.
Agora que te toco, pois jazes no chão, e sei que estas são as minhas mãos, pergunto-me se também o saberás.
Inferno #236: A lâmina.
Sinto constantemente uma faca no pescoço, mesmo a meio do pescoço, entre o ouvido e o ombro, a assobiar, a fazer-me adivinhar a sua frieza tão próxima. Nunca pensei que um dia precisaria de morte, de medo da morte, para sentir adrenalina. A verdade é que estou demasiado gasta, azul, cinzenta e verde-pardo. Sou uma velha de 20 anos. Há quem diga que as mulheres têm prazo de validade. Sempre achei a ideia verdadeiramente idiota, mas começo a sentir o meu.
Inferno #235: Neve.
Bem podes chorar, porque a neve veio finalmente, e agora vês que desapareci. Não sou eu, sou apenas uma enorme cobertura de açucar gelado.
Wednesday, October 8
Inferno #234: A desconstrução pessoal - a sinceridade.
Habituei-me a ser sincera quando me fartei de inventar coisas só para não dizer o que pensava. A sinceridade nunca me levou a lado nenhum: vivo no estado de aparvalhamento próprio de quem vive muito contente com a sua honestidade, mas espero, com toda a sinceridade, que esta sinceridade me valha pelo menos um bom murro no focinho.
Inferno #233: A desconstrução pessoal - a ironia.
Sou, por disciplinada aprendizagem, irónica. Acredito que a ironia é das melhores ferramentas pessoais que podemos desenvolver, sobretudo se atingir aquele ponto em que se confunde com a sinceridade. Sou ambas as coisas: irónica e sincera, a grande questão é saber quando sou uma coisa e quando sou a outra, é que, regra geral, ninguém o perecebe, e quando percebe, acha que está enganado,
Inferno #232: A desconstrução pessoal - o falso intelecto.
Sou, por pura parvoíce, um falso intelecto. Na verdade, conheço muito pouco, muito menos do que finjo conhecer. Muitas vezes, limito-me a acenar que sim com a cabeça e ajo como se não tivesse nada a acrescentar ao assunto, ou então construo um puzzle diferente com tudo aquilo que os outros acabaram de dizer.
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