Decidiram separar-se por uns tempos, porque «aquilo» não estava a resultar. Já o tinham feito uma vez: largaram-se por uma semana, porque a rotina os matava aos poucos. Mas desta segunda vez, tinham pensado mais sobre o assunto: ou a inércia do dia-a-dia acabava, ou aquela relação estava destinada a não existir.
Ao fim um mês, ela, mais impulsiva, percebeu que não sabia viver sem ele. Estava certa de que, juntos, poderiam reanimar a relação - afastados assim como estavam é que não chegariam a lado nenhum. Falaram então durante longas horas. Ela pôs o coração bem ao alcance dele: aquele mês tinha-lhe feito ver que o amava, e que queria ficar com ele. Só não estava preparada para a resposta dele: aquele mês tinha-o feito ver precisamente o contrário - já não gostava dela, não iam reatar.
O mundo, as pessoas, perdem constantemente a sincronia...
Tuesday, June 10
Wednesday, May 28
Inferno #219: Vôa-dores.
Somos traças com asas de celofane de muitas cores, a planar sobre os néons intermitentes de um velho parque de diversões.
Tuesday, May 27
Friday, May 9
Inferno #217: O surto.
Tenho fé que um dia enlouqueceremos todos. Somos loucos, somos todos loucos! Só assim se explica o ritmo a que vivemos - temos mesmo de estar loucos... É isto que sinto quando deito o meu corpo cansado e, depois de um sono insuficiente, acordo sentindo as pálpebras entontecidas, a fazer força para abrir, enquanto teimam em permanecer fechadas.
Inferno #216: O mercado de trabalho
Somos jovens, somos frescos, somos os melhores.
Tiramos bons cursos superiores. Trabalhamos. Entramos cedo, saímos tarde; corremos para completar todas as tarefas do dia. Somos paus mandados, somos sacos de boxe. Somos mercadorias: se não quisermos o trabalho, há-de haver outros macacos que o queiram (nós próprios somos esses macacos).
Em suma, somos putas: aceitamos fazer tudo, desde que nos paguem (e na maioria das vezes, mal).
Tiramos bons cursos superiores. Trabalhamos. Entramos cedo, saímos tarde; corremos para completar todas as tarefas do dia. Somos paus mandados, somos sacos de boxe. Somos mercadorias: se não quisermos o trabalho, há-de haver outros macacos que o queiram (nós próprios somos esses macacos).
Em suma, somos putas: aceitamos fazer tudo, desde que nos paguem (e na maioria das vezes, mal).
Monday, April 28
Inferno #215: Morrer aos bocados.
Lia coisas terríveis nos jornais e já andava a comer mal há semanas. Já não estava com amigos há meses, já não respirava ar que não fosse contaminado. Nem sonhava, nem sorria. Andava preocupada com coisas que não conseguia resolver e atormentada com um amor não correspondido de há um ano atrás. Pareceu-lhe bastante natural quando, um dia, caiu na calçada e deixou de respirar. Afinal o que andava ela a fazer há meses, se não a morrer aos bocados?
Inferno #214: Guardar segredos.
Haverá maior ratoeira?
E se um dia sou apanhada a guardar o segredo de alguém?
E se um dia sou apanhada a guardar o segredo de alguém?
Inferno #213: Bonecas Russas.
As pessoas são como bonecas russas: enormes e grosseiras por fora.
Aos poucos, conseguimos descascá-las, pô-las a descoberto até chegarmos a um ser muito pequeno, delicado e encantador. Mas só podemos vislumbrar esse coração perfeito por breves instantes: na grande parte do tempo, limitamo-nos a ser a camada exterior grosseira, de cores berrantes e madeira envernizada.
Aos poucos, conseguimos descascá-las, pô-las a descoberto até chegarmos a um ser muito pequeno, delicado e encantador. Mas só podemos vislumbrar esse coração perfeito por breves instantes: na grande parte do tempo, limitamo-nos a ser a camada exterior grosseira, de cores berrantes e madeira envernizada.
Inferno #212: o que será, será...(?)
É esmagador o vazio que se sente antes de começar uma coisa que se espera ser realmente importante. Um passo que se dá no nada, na esperança de que continue a haver terra firme debaixo dos pés. É... Um medo terrível de que nada corra como se espera. É isso mesmo: medo.
Aposto nisto ou deixo-me estar no meu canto, que não me preenche mas é relativamente confortável? E se, no fim de contas, nada der certo, o que é que acontece ao castelo que entretanto se construiu na cabeça? Desmorona, pura e simplesmente!? Mas e então, o que será de nós, a reconstruir um sonho a partir do zero, quiçá vezes e vezes sem conta?
Aposto nisto ou deixo-me estar no meu canto, que não me preenche mas é relativamente confortável? E se, no fim de contas, nada der certo, o que é que acontece ao castelo que entretanto se construiu na cabeça? Desmorona, pura e simplesmente!? Mas e então, o que será de nós, a reconstruir um sonho a partir do zero, quiçá vezes e vezes sem conta?
Sunday, March 23
Inferno #211: Os filmes e as meninas tolas.
Piso passeios, subo escadas e meto-me em elevadores fitando o chão. Quando chego ao destino, levanto a cabeça, afasto o cabelo da cara e ostento um olhar perigoso, ao meu melhor estilo hollywoodiano.
Acho sempre que vais estar na esquina a sorrir-me.
Acho sempre que vais estar na esquina a sorrir-me.
Wednesday, March 12
Inferno #210: A psicose.
Eras tu, eras mesmo tu. Como em tantas outras vezes, via-te e escondia-me. Fugia. E corria tão depressa... Mas não o suficiente: eras maior que eu e mais ágil. Acabavas por me alcançar. E depois era o surto. Via-te mesmo em frente a mim, a mudar de homem para lobo, a perder qualquer sanidade (pouca) que tivesses. A voz enrouquecia, os olhos enfureciam e espumavas.
Eu gritava, pedia ajuda, mas ninguém ouvia. Os gritos que conseguiam ultrapassar a boca eram condensados num guincho seco e curto. Estavas a enlouquecer, estavas mesmo a enlouquecer, e fazia-lo ao pé de mim, sem qualquer pudor, sem pensar na enorme confusão que és na minha cabeça.
Acordei alheada. Como de todas as vezes.
Como somos capazes de criar histórias paralelas às reais?
Eu gritava, pedia ajuda, mas ninguém ouvia. Os gritos que conseguiam ultrapassar a boca eram condensados num guincho seco e curto. Estavas a enlouquecer, estavas mesmo a enlouquecer, e fazia-lo ao pé de mim, sem qualquer pudor, sem pensar na enorme confusão que és na minha cabeça.
Acordei alheada. Como de todas as vezes.
Como somos capazes de criar histórias paralelas às reais?
Friday, February 29
Inferno #208: Cansaço.
Quando o corpo fica tão dormente que já nem o sinto. Ou antes, sinto apenas os ombros e a parte de fora do braço, que passou o dia mal apoiado. Naquele momento sou só ombros e braços. Ombros inchados e braços magoados. Ombros e braços incapazes de dar abraços.
Wednesday, February 27
Inferno #205: O Inverno infinito.
Parou de chover há dias, mas o céu continua a parecer-me cinzento, porque deixaste um sabor amargo cá em casa.
Todas as manhãs, quando me levanto, tenho vontade de cair.
Todas as manhãs, quando me levanto, tenho vontade de cair.
Tuesday, February 26
Inferno #204: A poetisa de rua.
Comprei um poema a uma tipa. Ou antes, ela vendeu-me um poema. Comprei-o sem o ter lido (o consumismo...). Decidi mesmo que não o ia ler.
Mas li-o.
Não gostei.
Onde é que posso reclamar?
Mas li-o.
Não gostei.
Onde é que posso reclamar?
Saturday, February 2
Inferno #201: Suspeita.
Se um dia os meus olhos e os teus se cruzassem, acho que não me ias reconhecer.
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