Thursday, January 17

Inferno #200: segredo.

Em alguns (poucos) dias, sinto um desejo sincero, mas culpado (quase inconfessável): Quero que a poesia se f*da!

Wednesday, January 16

Inferno #199: Passeio pelo fim do mundo, depois da chuva.

Saiu de casa para ver o Inverno que timidamente se anunciava. A cidade estava agora abandonada. O céu era cinzento claro, de fazer doer a cabeça. As botas, gastas de caminhadas antigas, escorregavam na calçada de pedras moles e polidas. No chão, os guarda-chuvas amontoavam-se como morcegos de asas partidas, cegados pela claridade do dia. O cheiro que saía do chão não era a terra molhada, mas a açafrão rançoso.
Não conseguia respirar plenamente o dia. Assustava-se com todos os ruídos, com as folhas que morriam das árvores até ao chão, a dançar gloriosamente pela última vez.
Olhou para si no reflexo de uma porta de vidro. Era de um branco transparente, já quase nem se conseguia ver...
Também ela, como uma folha morta pelo primeiro Inverno, dançava gloriosamente pela última vez, enquanto descia da sua colina de Lisboa até ao Terreiro. Deixou então que as suas pernas de pano a guiassem, e pela primeira vez o seu coração ardeu, ardeu de amor pela cidade (im)perfeita: Lisboa.

Tuesday, December 18

Inferno #198: A arca.

Projectou-a na mente. Uma arca onde poria todos os homens que por qualquer motivo se tinham cruzado com ela. Ainda não sabia se os dividiria por idades, categorias ou ordem alfabética. Apesar das indecisões que lhe suscitava a organização, começou a fazê-los entrar na arca pela ordem em que tinham entrado na sua vida. É que não tinha o tempo todo do mundo. Tempos houve em que tinha o tempo de uma vida para fazer aquele trabalho, mas essa vida estava quase no fim, não tinha tempo a perder.

Inferno #197: O velho.

O "velho" não lhe saiu da cabeça durante um mês e tal. Um mês de noites mal dormidas a fantasiar com ele, holograma perfeito projectado da sua cabeça directamente para a sua cama.
Devia estar apaixonada. Ou a querer ficar apaixonada..."Era o que mais me faltava, agora apaixonar-me por um velho, um paizinho...".
Mas, enfim, eram só hologramas. Nunca chegou a conhecer bem o homem que existia no velho. Gostava apenas de falar com ele, dava-lhe gozo sentir-se mais inteligente do que ele, e sobretudo muito mais nova. Sabia que as coisas não eram bem assim. Aliás, a verdade é que era o velho que dominava as conversas: falavam sobre os assuntos dele, no horário de nómada que ele tinha escolhido para si, e quando estava disposto a isso. No fundo, sabia que estava a ser manipulada em cada conversa que tinham, mas enquanto não o encontrasse na sua cama (em carne, não em projecção mental), a invadir-lhe a privacidade como nunca ninguém se tinha atrevido a invadir (nem ela o tinha consentido), não se preocuparia. Enquanto fosse apenas um jogo psicológico, não havia riscos reais, nem sequer o risco de se apaixonar.

Tuesday, November 13

Inferno #196: Ganância.

Pensei em ti e desejei-te durante o dia todo.
Quando cheguei a casa, já a noite ia avançada. Vi-te. Percebi que afinal o meu desejo podia aguentar mais dias sem te consumir.

Friday, November 9

Inferno #195: máxima

Guarde para amanhã o que pode fazer hoje, porque assim tem alguma coisa para se entreter…

(isto pode não dar sempre bom resultado)

Inferno #194: Equador (ou o momento entre dois momentos).

“Pensei por uns dias, e decidi que gosto de ti. Portanto, quero ver-te morto, e até pode ser uma morte doce. Não te quero magoar, mas preciso de ter garantias de que nunca vai mesmo existir um ‘nós’, que é absolutamente impossível.
Nem fazes ideia de quantas vezes te segui os movimentos. De início seguia-te com os olhos, para te cativar. Agora, os olhos olham por uma mira, ligada a um cano, ligado a um gatilho.
Se eu te matar, talvez já não me magoe, e a dor passe toda para ti.”

Sunday, November 4

Inferno #193: Dependência.

O meu traficante atrasa-se pontualmente 15 minutos. Espero por ele num jardim abandonado, com a massa pronta no bolso do blusão. A transacção é rápida: eu passo-lhe o dinheiro, ele passa-me a ‘droga’: amores vermelhos, sonhos cor-de-rosa e céus azuis.
Digo sempre que esta vai ser a última dose, mas depois de cinco dias de ressaca, a saudade começa a ser demasiada. Tremo, contorço-me e distendo-me em espasmos.
Preciso de mais.
E doem tanto os 15 minutos de sempre, em que ele se atrasa e eu desespero…

Friday, October 19

Inferno #192: Conta de dividir.

Agarrou-lhe o braço e fincou nele as unhas. Era tão ingénua… Pensava realmente que podia manter-se assim muito tempo, a agarrá-lo como se ele fosse de facto dela. Aliás, acreditava que estava de facto a prender o corpo dele com um bocado do seu próprio corpo. Acreditava mesmo que ele acabaria por ceder, e ficar.
Ele observou com calma toda aquela cena final de desespero. Teve até vontade de rir. Claro que já tinha decidido partir, claro que não ia voltar atrás. Claro que gostava dela, genuinamente. Mas era tão transparente que o aborrecia, tão previsível, tão mulherzinha…
Bastou um olhar dele, para perceber que não iam mesmo ficar juntos. Largou-lhe o braço, afastou-se da porta. Ficou a ver partir o único homem que tinha amado.

Inferno #191: Pinheiro e carvalho '3.

Tinha os pés gelados. Mas não tanto quanto o coração. Já não se lembrava muito bem de como aquilo tinha acontecido. Já não chorava, não ria, não tinha grande desejo por nada.
Também a voz, porque é com ela que dizemos o que o coração quer, se tinha tornado gelada, grave, robótica.
A figura agora era franzina e pálida.
Há já algum tempo que estava naquela cama branca, alimentada a soro.
Sabia que tinha encenado a própria morte. Deitou-se num caixão e cortou os pulsos, mas mais do que tinha previsto. Só queria chamar a atenção, porque não aceitava não ser o centro das atenções e das preocupações. Salvou-se de ter morrido, mas não se salvou de outra morte bem mais dolorosa - o hospício. A loucura tomou conta dela, acabou por entrar em coma. Já nem sabia há quanto tempo vivia naquela mesma cama: podiam ser dias, semanas, meses, anos. Anos!? O que é que se tinha passado durante aquele tempo todo (que lhe parecia infinito) em que dormiu?

Thursday, October 18

Inferno #190: nem um gajo giro...

Se eu mandasse, todo e qualquer local de trabalho teria obrigatoriamente um gajo giro!
O que é que eu vou fazer sem a musa radiofónica? A minha (minha e da Mariana) musa, linda de morrer, simpática, inteligente e com o sotaque alentejano mais charmoso de Lisboa e arredores!?
Como é que eu me vou habituar ao meu trabalho novo, onde não há um só gajo giro para lavar as vistas?

Wednesday, October 17

Inferno #189: Descoordenação.

As mãos esperneiam. Os pés gesticulam.
Os olhos articulam. A boca vislumbra.
As orelhas tocam-se. O corpo ouve.

Tuesday, October 16

Inferno #188: Pinheiro e carvalho '2

Quando voltou a acordar, não estava mais naquela cama fechada de madeira.
Agora, atordoada, espreitava com os olhos meio-fechados a cama em que a tinham deixado: era mais larga e mais clara que o caixão. Caramba, tudo ali era tão claro, quase nem conseguia abrir os olhos! “Será isto o purgatório?”
Depressa teve a resposta: um cheiro enjoativo a desinfectante, os gritos loucos de alguém muito próximo dela, e uma voz desconhecida, mas agradável, “Hora da medicação”.

Monday, October 15

Inferno #187: pensamento do dia.

A minha cabeça imprimiu a tua cara.

Inferno #186: vazios.

Algumas lágrimas são secas.
Alguns sorrisos são amarelos.
Algumas palavras são mudas.
Alguns gestos são vagos.
Alguns sentimentos estão apagados.
Algumas pessoas ficam esquecidas.

Inferno #185: comida.

Alimento-me de páginas em branco, porque sonho poder mudá-las com aquilo que existe dentro de mim.

Friday, October 12

Inferno #184: máxima.

Quem tudo quer, ainda não percebeu muito bem o que é que quer.

Inferno #183: máxima.

Mais vale não ter nenhum pássaro na mão, para conseguir apanhar as coisas que interessam realmente...

Inferno #182: Pinheiro e carvalho.

Estava deitada numa cama. Estranhou o vestido comprido que a envolvia, afinal o que é que lhe tinha passado pela cabeça? Quem é que se veste de gala para ir para a cama? Estranhou também o facto de a cama ser tão estreita. Costumava ser ampla, agora só tinha espaço para o corpo dela, assim como estava, direito e de costas para o colchão.
O dia estava claro, tão claro que não encontrava força para abrir os olhos. Sentia o corpo frio, dormente, e não tinha um lençol para se aquecer.
Ao seu redor, pairava um cheiro de verniz e pólen. Afinal não tinha dormido em casa…
Lentamente, mexeu os dedos da mão direita, que dormia sobre a esquerda, e sentiu a cicatriz que o pulso escondia. Nunca pensou que a tivesse feito assim tão grande…
Estava morta, e sabia-o agora.

Tuesday, October 9

Inferno #181: raio-x.

Os olhos já não são os mesmos. Ganharam ignorância. Perderam mundo. Apresentam-se vazios. No lugar deles, dois berlindes que aprenderam a passar pelas coisas sem as ver.
O cabelo teima em cair. Perde os tons outrora quentes. Agora é cor de rato. Fininho, as mãos quase não o sentem quando passam por ele.
As pernas e os pés vacilam a cada passo arrastado. As veias sobressaem como raízes de uma árvore velha, plantada há muito tempo no lugar de onde nunca saiu.
As mãos perderam vigor. Já não têm vida quando agarram as coisas; a vida que ainda têm serve-lhes apenas para suportar o peso da pele dos braços.
A boca conheceu os seus novos tons de rosa velho. Já não sabe a que sabem as coisas, porque já não as consegue sentir. Fecha-se cada vez mais sobre si mesma, engelha-se, porque já não é quente.
A pele empalideceu e enrugou.
Olha-se ao espelho e sorri, porque não é como se vê por dentro.