Friday, March 26

Purgatório #4: A ausência.

É inevitável esquecer-te. Com o tempo, vou deixando de ver a tua cara tão nitidamente. Os teus gestos começam a irritar-me e deixo de suportar ouvir-te sequer. É inevitável reparar nos teus defeitos e em todas as coisas pequeninas que me tiram do sério, mas que até há bem pouco tempo achava engraçadas. Vais deixando de fazer sentido para mim...
Ainda assim, são muitas as vezes em que tenho vontade de te pedir que esperes, porque chega a ser arrasadora a impressão de que vais mesmo esperar.
Foi um erro dar-te como adquirido, é um erro ainda maior continuar a pensar em ti.

Purgatório #3: A presença.

Estás em mim como acho que nunca ninguém esteve. Acordo contigo, tenho-te nos passos que dou, toco-te nos sítios onde estou e, às vezes, quando o vento canta, percebo-te nitidamente a falar comigo.

Wednesday, March 24

Purgatório #2: A convivência.

Ter de me habituar, em revolta silenciosa, a conviver contigo. Mas a culpa não é tua, é minha e da minha vontade…

Purgatório #1: Voltar a pôr os pés na terra.

Preferia ser-te transparente a motivar o irritante tratamento especial que me dás, e que eu não pedi, motivado única e exclusivamente pela possessividade natural que se tem quando alguém que valorizamos gosta de nós, e que não queremos que deixe de gostar, porque, enfim, faz-nos bem ao ego…
Esse tratamento especial faz-me atribuir sentidos a coisas que não existem e, bom, ter consciência disso leva-me ao desespero.
É isso, fazes-me desesperar porque «nós» não existe, está apenas alojado no meu triste, e brilhante, cérebro.

Tuesday, June 30

- Céu -

O fim, provavelmente, chegou.

Não sei se aqui voltarei algum dia; se calhar, volto já amanhã, se calhar volto daqui a uns meses, ou nunca mais...

Já não venho aqui com o entusiasmo com que vinha no início; tornei-me céptica em relação a mim mesma. Estou farta de cair num chão falso, porque não há ninguém que me ajude a levantar. Nunca houve. Ao mesmo tempo, preciso deste cepticismo, pois é a descrença total em mim que me impulsiona a fazer mais e melhor; mato-me periodicamente para renascer com força redobrada. Tudo é cíclico; não há coisas lineares.

Até um dia destes,

Francisca.

Friday, February 6

Inferno #251: A outra pessoa.

Estes anos todos em que não estávamos juntos, mas que sentíamos as nossas respirações entrelaçar-se uma na outra, em que te torturava com as minhas aparições inesperadas nos teus cafés e bares, pensava que estava a criar uma dependência mútua. Mas não, afinal a pessoa forte em nós dois és tu. Afinal já tinhas ultrapassado o facto de te ter deixado sem grandes explicações.
Bom, voltemos para o teu dia e para a tua nova pessoa.
Para já, não consigo recuperar o ânimo. E tu, consegues recuperar o fôlego?

Inferno #250: Tudo.

Às vezes, tudo não chega para nada.

Wednesday, January 14

Inferno #249: Maçãs e corações.

Talvez fosses mesmo tu a tentar beijar-me, ou talvez fossem apenas maçãs e corações do sonho de ontem a viver nos meus bolsos vazios.

Inferno #248: O medo.

Percorre calmamente a espinha até chegar ao cimo das costas. Uma vez aí, espalha-se pelos ombros. O friozinho desce dos ombros para a barriga, que estremece. A sensação não é inédita, é apenas o medo de não saber o que vem a seguir, o medo de não saber se se é suficientemente bom para o que aí vem.

Tuesday, January 6

Inferno #247: O fim...quase.

Já não me fascinas, praticamente.
Ainda assim, há uma pequena memória tua a assobiar-me ao ouvido; essa ideia do que foste para mim em tempos, admito, continua a fazer-me engolir em seco, mas só um bocadinho...

Inferno #246: Sonhar que se voa.

Na verdade, detestava sonhar que voava. O problema não era o sonho, mas sim acordar no dia seguinte: a boca muito seca, o coração a caminhar acelerado, a terrível vertigem que a mantinha inerte, presa à cama, e a lágrima que sentia ao roçar com a cara no tecido húmido da almofada. Nessas raras manhãs, sentia a dor excepcional que é saber que não se é livre.

Inferno #245: Enquanto dormias.

Enquanto dormias, desfazia cada palavra tua na minha boca, como chocolate. Quando acordaste desapareci, mas esse cheiro que ficou no teu quarto sou eu.

Inferno #244: Ser perfeito

Gostava de ter o toque do papel, o sabor da laranja, a cor de uma safira, o cheiro do mar, o corpo de uma árvore.
Talvez assim não me resistisses.

Friday, December 12

Inferno #243: semi-japonês

Sou uma planta de algodão
Abanada pelo vento
numa tarde húmida.

Desfaço-me ao sentir as gotas
Cair na minha cabeça.

Perco a beleza, perco a virtude.
Perdi-me.

Inferno #242: dentista

à saída do dentista, na tarde mais cinzenta de que me lembro, pisava o passeio e era acompanhada pela minha cabeça, cortada, a rolar no chão

Inferno #241: Jogo de profissões.

Passámos muitos anos a olhar-nos nos olhos, a roçar narizes, a lamber lábios, a segredar histórias que eram já nem sei de quem.
Éramos psicanalistas, esquimós, gourmets, contadores de histórias. Podíamos ser tudo, porque éramos nós, e um validava toda e qualquer ideia do outro.
Agora repousamos numa curva de uma estrada secundária, onde nos perdemos porque acreditámos que éramos mesmo imunes a qualquer coisa...

Tuesday, November 11

Inferno #240: Matemática.

Quanto tempo é preciso para que duas pessoas sintam genuinamente falta uma da outra?

Monday, November 10

Inferno #239: Maioridade.

Tornava-se cada vez mais difícil esconder que o tempo passava, e ela continuava no mesmo lugar. Não acontecia nada de extraordinário, não havia explosões, apenas coisas pequeninas, mundanas. O cabelo que caía no Outono, a nuvem negra a pairar sobre a cabeça no Inverno, o cansaço e a vontade de sair da cidade para outro lugar, qualquer lugar. Não havia pessoas novas, apenas camisas, fatos e gravatas iguais. Ninguém lhe disse que seria fácil, mas nunca pensou que fosse tão difícil.

Saturday, November 8

Inferno #238: A casa.

Tenho uma casa pequena. Nela, o tecto tem a altura dos meus pés, e o chão dá-me pela cabeça. Não existem móveis, ou roupas, ou quadros, só o silêncio infinito. Entro nela, e tranco-me com uma chave de cinzas. Não há nada nesse nada, onde tecto e chão se cruzam e anulam. Só um cheiro de especiarias doces e enjoativas (cravinho e erva-doce). É a minha casa, onde entro sempre que quero.

Friday, November 7

Inferno #237: Mãos.

Essas mãos, aí em baixo, são as minhas ou as de outra pessoa?
Lembras-te que, há muitos anos atrás, éramos só um do outro, só nossos? Partilhávamos a comida, os bancos, os pensamentos e as músicas. Éramos as nossas mãos com que partíamos coisas aos pedaços, para nos alimentarmos.
Depois fiquei míope, deixei de te conseguir alcançar com as mãos e os olhos. Navegaste para muito longe, e quando voltaste não eras a mesma pessoa, já não te conseguia decifrar o pensamento; já não querias partilhar a tua comida comigo.
Agora que te toco, pois jazes no chão, e sei que estas são as minhas mãos, pergunto-me se também o saberás.

Inferno #236: A lâmina.

Sinto constantemente uma faca no pescoço, mesmo a meio do pescoço, entre o ouvido e o ombro, a assobiar, a fazer-me adivinhar a sua frieza tão próxima. Nunca pensei que um dia precisaria de morte, de medo da morte, para sentir adrenalina. A verdade é que estou demasiado gasta, azul, cinzenta e verde-pardo. Sou uma velha de 20 anos. Há quem diga que as mulheres têm prazo de validade. Sempre achei a ideia verdadeiramente idiota, mas começo a sentir o meu.

Inferno #235: Neve.

Bem podes chorar, porque a neve veio finalmente, e agora vês que desapareci. Não sou eu, sou apenas uma enorme cobertura de açucar gelado.

Wednesday, October 8

Inferno #234: A desconstrução pessoal - a sinceridade.

Habituei-me a ser sincera quando me fartei de inventar coisas só para não dizer o que pensava. A sinceridade nunca me levou a lado nenhum: vivo no estado de aparvalhamento próprio de quem vive muito contente com a sua honestidade, mas espero, com toda a sinceridade, que esta sinceridade me valha pelo menos um bom murro no focinho.

Inferno #233: A desconstrução pessoal - a ironia.

Sou, por disciplinada aprendizagem, irónica. Acredito que a ironia é das melhores ferramentas pessoais que podemos desenvolver, sobretudo se atingir aquele ponto em que se confunde com a sinceridade. Sou ambas as coisas: irónica e sincera, a grande questão é saber quando sou uma coisa e quando sou a outra, é que, regra geral, ninguém o perecebe, e quando percebe, acha que está enganado,

Inferno #232: A desconstrução pessoal - o falso intelecto.

Sou, por pura parvoíce, um falso intelecto. Na verdade, conheço muito pouco, muito menos do que finjo conhecer. Muitas vezes, limito-me a acenar que sim com a cabeça e ajo como se não tivesse nada a acrescentar ao assunto, ou então construo um puzzle diferente com tudo aquilo que os outros acabaram de dizer.

Inferno #231: A desconstrução pessoal - a timidez.

Sou, por defeito e por hábito, uma pessoa tímida. Virei-me para dentro há anos, quando não sabia sequer pensar, e simplesmente habituei-me a ser assim. É confortável. É confortável pôr a minha cara misteriosa e perceber que alguém se rói para descobrir o quê de tão misterioso estou a pensar. Provavelmente, estarei apenas a pensar na corrente de ar que me atravessa o cérebro, entrando por um ouvido e saindo pelo outro.

Tuesday, October 7

Inferno #230: A desconstrução pessoal - a maldade.

Sou, por instinto, uma pessoa má. Sou-o por desporto, por diversão pessoal. Dá-me um certo gozo criticar alguém e ver a sua expressão aflita perante a percepção de que não é perfeito.

Thursday, September 11

Inferno #229: A boca.

Tens uma boca que me fixa nos olhos. Mexe-se demoradamente, lambe-se nos lábios de cor rosa carne e depois trinca-os. Tens uma boca carnuda, de onde por vezes espreita um cigarro. Mas a boca não se distrai, e continua a fixar-me os olhos, que já não conseguem desviar o olhar, porque se apaixonaram por ela.

Inferno #228: O demónio.

Tenho um pequeno demónio, adormecido dentro de mim. Nunca o deixo morrer: dou-lhe doces, umas gotas de limão e erva. Alojei-o num canto muito quente do meu corpo. Sirvo-me dele para alimentar o desejo que te tenho e para não deixar que o teu por mim desapareça.

Saturday, August 23

Inferno #227: O edifício.

Ia escalando os andares daquele edifício. Já estava tão lá em cima! Tinha dado a vida àquele maldito edifício com a sua maldita empresa, que não tinha maneira de falir. Tinha somado promoções, títulos, prémios. Agora, quase no topo do edifício, quase a chegar à almejada posição de "chefe de todos", sentia uma enorme vontade de descer o edifício em vez de o subir, de voltar àquele posto que tinha inicialmente, tão confortável em toda a sua insignificância e de trocar a austeridade de agora pela simplicidade de antes, talvez uma pequena família, com um cão ou um gato, em vez desta solidão que sentia agora... De que lhe valia chegar ao topo, se não tinha ninguém com quem comemorar? Não lhe valia de nada. Fechou os olhos e deixou-se cair no ar.

Inferno #226: A doença.

Sabemos da doença, sabemos de como te corrói de formas invisíveis, sabemos que não podes fazer, ver e comer certas coisas. Ainda assim, pomos essas coisas ao teu alcance, num gesto de profundo carinho - não queremos que te sintas privado de nada.
Carinho, ou vontade de te ver desaparecer o mais depressa possível?

Inferno #225: tomar conta.

Por que é que tomamos conta de alguém? Por que é que esperamos que em troca tomem conta de nós? Somos mesmo assim tão ingénuos?

Friday, July 11

Inferno #224: A luta

Tinhas um cheiro a fruta madura. Queimavas-me com a língua e os braços, e eu afastava-te bruscamente, para tentar arrefecer, respirar. Abominava isso em ti, esse hábito de chegar e ocupar todo o território com o teu corpo - dizias que era «envolvência», que eu não sabia apreciar a tua fabulosa «envolvência».
Não era «envolvência», era «viscosidade». Mas confesso que já lhe sinto a falta...

Inferno #223: Aniversário

Triste é fazer anos e ver que muitos dos teus amigos andam demasiado ocupados com a vidinha para sequer te darem 5 minutos do seu precioso tempo.
Parabéns para mim, foda-se, sou das pessoas mais porreiras que conheço!

Tuesday, June 10

Inferno #222: Cinema.

Há filmes que, por melhores que sejam, só servem para nos mostrar o quão imperfeita e por realizar a nossa vida é. Só servem para nos mostrar que há quem viva muito mais que nós, não necessariamente por ter sido mais corajoso, mas apenas porque teve mais sorte. Muitas vezes, parte daquilo que somos resume-se a isso mesmo: a momentos de maior ou menor sorte.

Inferno #221: P.V.C.

Dizem que tens um coração de plástico: sem cor, textura ou sentimento. Nunca te conseguiram matar - apenas rasgar-te a casca.

Inferno #220: Fins.

Decidiram separar-se por uns tempos, porque «aquilo» não estava a resultar. Já o tinham feito uma vez: largaram-se por uma semana, porque a rotina os matava aos poucos. Mas desta segunda vez, tinham pensado mais sobre o assunto: ou a inércia do dia-a-dia acabava, ou aquela relação estava destinada a não existir.
Ao fim um mês, ela, mais impulsiva, percebeu que não sabia viver sem ele. Estava certa de que, juntos, poderiam reanimar a relação - afastados assim como estavam é que não chegariam a lado nenhum. Falaram então durante longas horas. Ela pôs o coração bem ao alcance dele: aquele mês tinha-lhe feito ver que o amava, e que queria ficar com ele. Só não estava preparada para a resposta dele: aquele mês tinha-o feito ver precisamente o contrário - já não gostava dela, não iam reatar.
O mundo, as pessoas, perdem constantemente a sincronia...

Wednesday, May 28

Inferno #219: Vôa-dores.

Somos traças com asas de celofane de muitas cores, a planar sobre os néons intermitentes de um velho parque de diversões.

Tuesday, May 27

Friday, May 9

Inferno #217: O surto.

Tenho fé que um dia enlouqueceremos todos. Somos loucos, somos todos loucos! Só assim se explica o ritmo a que vivemos - temos mesmo de estar loucos... É isto que sinto quando deito o meu corpo cansado e, depois de um sono insuficiente, acordo sentindo as pálpebras entontecidas, a fazer força para abrir, enquanto teimam em permanecer fechadas.

Inferno #216: O mercado de trabalho

Somos jovens, somos frescos, somos os melhores.
Tiramos bons cursos superiores. Trabalhamos. Entramos cedo, saímos tarde; corremos para completar todas as tarefas do dia. Somos paus mandados, somos sacos de boxe. Somos mercadorias: se não quisermos o trabalho, há-de haver outros macacos que o queiram (nós próprios somos esses macacos).
Em suma, somos putas: aceitamos fazer tudo, desde que nos paguem (e na maioria das vezes, mal).

Monday, April 28

Inferno #215: Morrer aos bocados.

Lia coisas terríveis nos jornais e já andava a comer mal há semanas. Já não estava com amigos há meses, já não respirava ar que não fosse contaminado. Nem sonhava, nem sorria. Andava preocupada com coisas que não conseguia resolver e atormentada com um amor não correspondido de há um ano atrás. Pareceu-lhe bastante natural quando, um dia, caiu na calçada e deixou de respirar. Afinal o que andava ela a fazer há meses, se não a morrer aos bocados?

Inferno #214: Guardar segredos.

Haverá maior ratoeira?
E se um dia sou apanhada a guardar o segredo de alguém?

Inferno #213: Bonecas Russas.

As pessoas são como bonecas russas: enormes e grosseiras por fora.
Aos poucos, conseguimos descascá-las, pô-las a descoberto até chegarmos a um ser muito pequeno, delicado e encantador. Mas só podemos vislumbrar esse coração perfeito por breves instantes: na grande parte do tempo, limitamo-nos a ser a camada exterior grosseira, de cores berrantes e madeira envernizada.

Inferno #212: o que será, será...(?)

É esmagador o vazio que se sente antes de começar uma coisa que se espera ser realmente importante. Um passo que se dá no nada, na esperança de que continue a haver terra firme debaixo dos pés. É... Um medo terrível de que nada corra como se espera. É isso mesmo: medo.
Aposto nisto ou deixo-me estar no meu canto, que não me preenche mas é relativamente confortável? E se, no fim de contas, nada der certo, o que é que acontece ao castelo que entretanto se construiu na cabeça? Desmorona, pura e simplesmente!? Mas e então, o que será de nós, a reconstruir um sonho a partir do zero, quiçá vezes e vezes sem conta?

Sunday, March 23

Inferno #211: Os filmes e as meninas tolas.

Piso passeios, subo escadas e meto-me em elevadores fitando o chão. Quando chego ao destino, levanto a cabeça, afasto o cabelo da cara e ostento um olhar perigoso, ao meu melhor estilo hollywoodiano.
Acho sempre que vais estar na esquina a sorrir-me.

Wednesday, March 12

Inferno #210: A psicose.

Eras tu, eras mesmo tu. Como em tantas outras vezes, via-te e escondia-me. Fugia. E corria tão depressa... Mas não o suficiente: eras maior que eu e mais ágil. Acabavas por me alcançar. E depois era o surto. Via-te mesmo em frente a mim, a mudar de homem para lobo, a perder qualquer sanidade (pouca) que tivesses. A voz enrouquecia, os olhos enfureciam e espumavas.
Eu gritava, pedia ajuda, mas ninguém ouvia. Os gritos que conseguiam ultrapassar a boca eram condensados num guincho seco e curto. Estavas a enlouquecer, estavas mesmo a enlouquecer, e fazia-lo ao pé de mim, sem qualquer pudor, sem pensar na enorme confusão que és na minha cabeça.
Acordei alheada. Como de todas as vezes.
Como somos capazes de criar histórias paralelas às reais?

Inferno #209: Odor.

O teu perfume...

...só cheira a álcool.

Friday, February 29

Inferno #208: Cansaço.

Quando o corpo fica tão dormente que já nem o sinto. Ou antes, sinto apenas os ombros e a parte de fora do braço, que passou o dia mal apoiado. Naquele momento sou só ombros e braços. Ombros inchados e braços magoados. Ombros e braços incapazes de dar abraços.

Inferno #207: Sugestão para o suicídio ideal '6

Coma chocolatólico.

Wednesday, February 27

Inferno #206: Máxima.

A esperança... já morreu!

Inferno #205: O Inverno infinito.

Parou de chover há dias, mas o céu continua a parecer-me cinzento, porque deixaste um sabor amargo cá em casa.
Todas as manhãs, quando me levanto, tenho vontade de cair.

Tuesday, February 26

Inferno #204: A poetisa de rua.

Comprei um poema a uma tipa. Ou antes, ela vendeu-me um poema. Comprei-o sem o ter lido (o consumismo...). Decidi mesmo que não o ia ler.
Mas li-o.

Não gostei.

Onde é que posso reclamar?

Inferno #203: Vício.

Não acabar de ler os livros. Estar sempre "quase a acabar de ler".

Saturday, February 2

Inferno #202: Contas.

A quantos homens ou mulheres da nossa vida temos direito?

Inferno #201: Suspeita.

Se um dia os meus olhos e os teus se cruzassem, acho que não me ias reconhecer.

Thursday, January 17

Inferno #200: segredo.

Em alguns (poucos) dias, sinto um desejo sincero, mas culpado (quase inconfessável): Quero que a poesia se f*da!

Wednesday, January 16

Inferno #199: Passeio pelo fim do mundo, depois da chuva.

Saiu de casa para ver o Inverno que timidamente se anunciava. A cidade estava agora abandonada. O céu era cinzento claro, de fazer doer a cabeça. As botas, gastas de caminhadas antigas, escorregavam na calçada de pedras moles e polidas. No chão, os guarda-chuvas amontoavam-se como morcegos de asas partidas, cegados pela claridade do dia. O cheiro que saía do chão não era a terra molhada, mas a açafrão rançoso.
Não conseguia respirar plenamente o dia. Assustava-se com todos os ruídos, com as folhas que morriam das árvores até ao chão, a dançar gloriosamente pela última vez.
Olhou para si no reflexo de uma porta de vidro. Era de um branco transparente, já quase nem se conseguia ver...
Também ela, como uma folha morta pelo primeiro Inverno, dançava gloriosamente pela última vez, enquanto descia da sua colina de Lisboa até ao Terreiro. Deixou então que as suas pernas de pano a guiassem, e pela primeira vez o seu coração ardeu, ardeu de amor pela cidade (im)perfeita: Lisboa.

Tuesday, December 18

Inferno #198: A arca.

Projectou-a na mente. Uma arca onde poria todos os homens que por qualquer motivo se tinham cruzado com ela. Ainda não sabia se os dividiria por idades, categorias ou ordem alfabética. Apesar das indecisões que lhe suscitava a organização, começou a fazê-los entrar na arca pela ordem em que tinham entrado na sua vida. É que não tinha o tempo todo do mundo. Tempos houve em que tinha o tempo de uma vida para fazer aquele trabalho, mas essa vida estava quase no fim, não tinha tempo a perder.

Inferno #197: O velho.

O "velho" não lhe saiu da cabeça durante um mês e tal. Um mês de noites mal dormidas a fantasiar com ele, holograma perfeito projectado da sua cabeça directamente para a sua cama.
Devia estar apaixonada. Ou a querer ficar apaixonada..."Era o que mais me faltava, agora apaixonar-me por um velho, um paizinho...".
Mas, enfim, eram só hologramas. Nunca chegou a conhecer bem o homem que existia no velho. Gostava apenas de falar com ele, dava-lhe gozo sentir-se mais inteligente do que ele, e sobretudo muito mais nova. Sabia que as coisas não eram bem assim. Aliás, a verdade é que era o velho que dominava as conversas: falavam sobre os assuntos dele, no horário de nómada que ele tinha escolhido para si, e quando estava disposto a isso. No fundo, sabia que estava a ser manipulada em cada conversa que tinham, mas enquanto não o encontrasse na sua cama (em carne, não em projecção mental), a invadir-lhe a privacidade como nunca ninguém se tinha atrevido a invadir (nem ela o tinha consentido), não se preocuparia. Enquanto fosse apenas um jogo psicológico, não havia riscos reais, nem sequer o risco de se apaixonar.

Tuesday, November 13

Inferno #196: Ganância.

Pensei em ti e desejei-te durante o dia todo.
Quando cheguei a casa, já a noite ia avançada. Vi-te. Percebi que afinal o meu desejo podia aguentar mais dias sem te consumir.

Friday, November 9

Inferno #195: máxima

Guarde para amanhã o que pode fazer hoje, porque assim tem alguma coisa para se entreter…

(isto pode não dar sempre bom resultado)

Inferno #194: Equador (ou o momento entre dois momentos).

“Pensei por uns dias, e decidi que gosto de ti. Portanto, quero ver-te morto, e até pode ser uma morte doce. Não te quero magoar, mas preciso de ter garantias de que nunca vai mesmo existir um ‘nós’, que é absolutamente impossível.
Nem fazes ideia de quantas vezes te segui os movimentos. De início seguia-te com os olhos, para te cativar. Agora, os olhos olham por uma mira, ligada a um cano, ligado a um gatilho.
Se eu te matar, talvez já não me magoe, e a dor passe toda para ti.”

Sunday, November 4

Inferno #193: Dependência.

O meu traficante atrasa-se pontualmente 15 minutos. Espero por ele num jardim abandonado, com a massa pronta no bolso do blusão. A transacção é rápida: eu passo-lhe o dinheiro, ele passa-me a ‘droga’: amores vermelhos, sonhos cor-de-rosa e céus azuis.
Digo sempre que esta vai ser a última dose, mas depois de cinco dias de ressaca, a saudade começa a ser demasiada. Tremo, contorço-me e distendo-me em espasmos.
Preciso de mais.
E doem tanto os 15 minutos de sempre, em que ele se atrasa e eu desespero…

Friday, October 19

Inferno #192: Conta de dividir.

Agarrou-lhe o braço e fincou nele as unhas. Era tão ingénua… Pensava realmente que podia manter-se assim muito tempo, a agarrá-lo como se ele fosse de facto dela. Aliás, acreditava que estava de facto a prender o corpo dele com um bocado do seu próprio corpo. Acreditava mesmo que ele acabaria por ceder, e ficar.
Ele observou com calma toda aquela cena final de desespero. Teve até vontade de rir. Claro que já tinha decidido partir, claro que não ia voltar atrás. Claro que gostava dela, genuinamente. Mas era tão transparente que o aborrecia, tão previsível, tão mulherzinha
Bastou um olhar dele, para perceber que não iam mesmo ficar juntos. Largou-lhe o braço, afastou-se da porta. Ficou a ver partir o único homem que tinha amado.

Inferno #191: Pinheiro e carvalho '3.

Tinha os pés gelados. Mas não tanto quanto o coração. Já não se lembrava muito bem de como aquilo tinha acontecido. Já não chorava, não ria, não tinha grande desejo por nada.
Também a voz, porque é com ela que dizemos o que o coração quer, se tinha tornado gelada, grave, robótica.
A figura agora era franzina e pálida.
Há já algum tempo que estava naquela cama branca, alimentada a soro.
Sabia que tinha encenado a própria morte. Deitou-se num caixão e cortou os pulsos, mas mais do que tinha previsto. Só queria chamar a atenção, porque não aceitava não ser o centro das atenções e das preocupações. Salvou-se de ter morrido, mas não se salvou de outra morte bem mais dolorosa - o hospício. A loucura tomou conta dela, acabou por entrar em coma. Já nem sabia há quanto tempo vivia naquela mesma cama: podiam ser dias, semanas, meses, anos. Anos!? O que é que se tinha passado durante aquele tempo todo (que lhe parecia infinito) em que dormiu?

Thursday, October 18

Inferno #190: nem um gajo giro...

Se eu mandasse, todo e qualquer local de trabalho teria obrigatoriamente um gajo giro!
O que é que eu vou fazer sem a musa radiofónica? A minha (minha e da Mariana) musa, linda de morrer, simpática, inteligente e com o sotaque alentejano mais charmoso de Lisboa e arredores!?
Como é que eu me vou habituar ao meu trabalho novo, onde não há um só gajo giro para lavar as vistas?

Wednesday, October 17

Inferno #189: Descoordenação.

As mãos esperneiam. Os pés gesticulam.
Os olhos articulam. A boca vislumbra.
As orelhas tocam-se. O corpo ouve.

Tuesday, October 16

Inferno #188: Pinheiro e carvalho '2

Quando voltou a acordar, não estava mais naquela cama fechada de madeira.
Agora, atordoada, espreitava com os olhos meio-fechados a cama em que a tinham deixado: era mais larga e mais clara que o caixão. Caramba, tudo ali era tão claro, quase nem conseguia abrir os olhos! “Será isto o purgatório?”
Depressa teve a resposta: um cheiro enjoativo a desinfectante, os gritos loucos de alguém muito próximo dela, e uma voz desconhecida, mas agradável, “Hora da medicação”.

Monday, October 15

Inferno #187: pensamento do dia.

A minha cabeça imprimiu a tua cara.

Inferno #186: vazios.

Algumas lágrimas são secas.
Alguns sorrisos são amarelos.
Algumas palavras são mudas.
Alguns gestos são vagos.
Alguns sentimentos estão apagados.
Algumas pessoas ficam esquecidas.

Inferno #185: comida.

Alimento-me de páginas em branco, porque sonho poder mudá-las com aquilo que existe dentro de mim.

Friday, October 12

Inferno #184: máxima.

Quem tudo quer, ainda não percebeu muito bem o que é que quer.

Inferno #183: máxima.

Mais vale não ter nenhum pássaro na mão, para conseguir apanhar as coisas que interessam realmente...

Inferno #182: Pinheiro e carvalho.

Estava deitada numa cama. Estranhou o vestido comprido que a envolvia, afinal o que é que lhe tinha passado pela cabeça? Quem é que se veste de gala para ir para a cama? Estranhou também o facto de a cama ser tão estreita. Costumava ser ampla, agora só tinha espaço para o corpo dela, assim como estava, direito e de costas para o colchão.
O dia estava claro, tão claro que não encontrava força para abrir os olhos. Sentia o corpo frio, dormente, e não tinha um lençol para se aquecer.
Ao seu redor, pairava um cheiro de verniz e pólen. Afinal não tinha dormido em casa…
Lentamente, mexeu os dedos da mão direita, que dormia sobre a esquerda, e sentiu a cicatriz que o pulso escondia. Nunca pensou que a tivesse feito assim tão grande…
Estava morta, e sabia-o agora.

Tuesday, October 9

Inferno #181: raio-x.

Os olhos já não são os mesmos. Ganharam ignorância. Perderam mundo. Apresentam-se vazios. No lugar deles, dois berlindes que aprenderam a passar pelas coisas sem as ver.
O cabelo teima em cair. Perde os tons outrora quentes. Agora é cor de rato. Fininho, as mãos quase não o sentem quando passam por ele.
As pernas e os pés vacilam a cada passo arrastado. As veias sobressaem como raízes de uma árvore velha, plantada há muito tempo no lugar de onde nunca saiu.
As mãos perderam vigor. Já não têm vida quando agarram as coisas; a vida que ainda têm serve-lhes apenas para suportar o peso da pele dos braços.
A boca conheceu os seus novos tons de rosa velho. Já não sabe a que sabem as coisas, porque já não as consegue sentir. Fecha-se cada vez mais sobre si mesma, engelha-se, porque já não é quente.
A pele empalideceu e enrugou.
Olha-se ao espelho e sorri, porque não é como se vê por dentro.

Monday, October 8

Inferno #180: "Verão" (Vivaldi).

Fui toda a sua exaltação, euforia e melancolia.
Quando acabou, aos 10.20 minutos, achei-a muito pequena. Mas a música continua na minha cabeça...

Sunday, October 7

Inferno #179: máxima.

BERRAR é humano.

Inferno #178: canção de amor e desamor.

"I'm the singer, I'm the singer in the band
You're the loser, I won't dismiss you out of hand
You've got a beautiful face
It will take you places

You kept running
You've got money, you've got fame
Every morning I see your picture from the train
Now you're an actress!
So says your résumé
You're made of card
You couldn't act your way out of a paper bag

You got lucky, you ain't talking to me now
Little Miss Plucky
Pluck your eyebrows for the crowd
Get on the airplane
You give me stomach pain
I wish that you were here
We would have had a lot to talk about

We had a deal there
We nearly signed it with our blood…
An understanding
I thought that you would keep your word
I'm disappointed
I'm aggravated
It's a fault I have, I know
When things don't go my way I have to

Blow up in the face of my rivals
I scream and rant, I make quite an arrival
The men are surprised by the language
They act so discreet, they are hypocrites so fuck them too!

I always loved you
You always had a lot of style
I'd hate to see you on the pile
Of ‘nearly-made-it' s
You've got the essence, dear
If I could have a second skin
I'd probably dress up in you

You're a star now, I am fixing people's nails
I'm knitting jumpers, I'm working after hours
I've got a boyfriend, I've got a feeling that he's seeing someone else
He always had a thing for you as well

Blow in the face of my rivals
I swear and I rant, I make quite an arrival
The men are surprised by the language
They act so discreet, they are hypocrites forget them
So fuck them too"

Belle and Sebastian, "Dress up in you" (The Life Pursuit)

Inferno #177: erros.

Sou uma gralha que escapou no texto. O revisor ainda estava mal acordado e não me leu. Sou uma gralha entre as palavras caras.

Inferno #176: focas e leões marinhos.

Não queria ser mais uma janela de escape para ele.
De início, parecia diferente, bom... Mas afinal eram apenas duas pessoas à procura de outras pessoas que as ajudassem a esquecer um bocadinho a mágoa quotidiana...
- Não ia resultar. É que ela não tinha escola nenhuma, e muito pouca vocação para aluna. Já ele, até podia ensinar-lhe tudo o que ela não sabia, mas depressa perderia a paciência...

Inferno #175: mais qu'est-ce que vous faites là?

Acabar uma conversa é algo de muito simples.
Para quê prolongá-la até que esteja totalmente vazia, se os dias todos se preenchem de outras conversas, também elas vazias?

Tuesday, October 2

Inferno #174: A caça.

Às vezes não gostamos dos poemas que nos dão a ler. E isso não é mau, é humano.
Eu não gostei do teu poema, não era esse que queria ouvir, era outro bem diferente. Também não me soubeste ler. Agora sequei para ti; estou muda e cega, não quero ler o teu poema, nem quero que leias os meus.
Até um dia destes.

Inferno #173: Estátuas de cera.

Nos dias em que as palavras ficam guardadas, é cera que me escorre pelas mãos e as seca. Ficam como estátuas. Não as posso usar para falar. Apenas as contemplo. A muito custo tento juntá-las e peço, em silêncio, que esta artrite seja mesmo passageira.

Inferno #172: Dias orangotangos.

Numa só manhã...
10.00h: Ignorar o sinal de trânsito proíbido (juro que não o vi) na presença de um polícia.
12.00: Deixar cair uma caixa de laranjas no supermercado (juro que não percebi que estava tão perto).
12.50: Partir a tigela das ameixas (juro que não a vi cair do frigorífico).

Resultados:
- o polícia até simpatizou comigo e por isso não me tirou a carta.
- um casal ajudou-me a arrumar as laranjas na caixa.
- uma vassoura e uma pá dão sempre jeito quando há vidros partidos no chão.

São assim os dias orangotangos: provocam acidentes em série. Mas dança-se o tango das coisas de todos os dias, e tudo se resolve...

Wednesday, September 26

Inferno #171: A música nova do millennium bcp.

"Um pequeno t2, onde podemos viver os dois
lararara um carro com tecto de abrir
lararara tenho que virar a minha vida de pernas para o ar".


O Ricardo Azevedo é um senhor que um dia, provavelmente porque não tinha nada que fazer, decidiu escrever uma música (cujo essencial está aí em cima, entre aspas). Foi claramente uma má decisão (os motivos estão também aí em cima, a negrito). Mas pelos vistos, o Millennium bcp pensa o contrário.
Eu cá não sou expert em música. Mas até sei algumas coisas. Por exemplo, sei que "t2" rima com "os dois" porque, enfim, É A MESMA PALAVRA. Depois há a tal questão do carro com tecto de abrir. Eu também quero muita coisa e não a apanho! Tem dias em que a única coisa que apanho é o 35 que vai ali para o Cais do Sodré... Por fim, acho que "virar a vida de pernas para o ar" [olha!, uma rima, há quanto tempo!!] não é lá muito bom. Porque isso implicaria estar constantemente a fazer o pino. Mas é só uma opinião...

Pronto, está bem, o senhor Ricardo Azevedo (que tem mais nome de futebolista do que de cantor - ah..., talvez seja por isso que a música não é lá grande coisa!!) quer ser feliz. Eu também quero, mas não ando para aí a cantar para cima das pessoas numa carrinha cor-de-rosa!

*O execrável anúncio pode se visto aqui, mas por favor não faça esforços que pode não aguentar!!

Inferno #170: Uma fixação pessoal.




Se há homem que Francisca aprecia, esse homem é Albano Jerónimo (esse mesmo da fotografia de má qualidade aí em cima).
É certo que não tem o melhor dos nomes, mas tudo aquilo que não tem em nome, compensa com o corpinho. Albano Jerónimo é, podemos dizê-lo, bastante "bom". Até os olhos (cuja cor não consigo precisar) são bons. Um macho latino sem todas aquelas coisinhas que não se apreciam lá muito num macho latino (i.e. pulseira e/ou fio de ouro e unhaca no dedo mindinho).
Um belo naco, para comer nas indigestas (oh, e isso é dizer pouco...) novelas da TVI.


*O tom explicitamente rebarbado deste post foi 'uma vez sem exemplo'...

Saturday, September 22

Inferno #169: A comunidade.

Os blogueiros deviam ser obrigados a continuar a escrever. PARA SEMPRE.
A minha coluna aqui do lado direito está cada vez mais pobre. Snif snif. O QUE É QUE EU VOU LER AGORA!?

Inferno #168: Dias macacos.

Aqueles dias que lá para o fim da tarde, quando ninguém espera, decidem pôr as patas dianteiras debaixo dos sovacos e guinchar u u uah ah.

Inferno #167: A musa...(para ler a suspirar)

Duas meninas da rádio têm uma musa nova.
Um dia vão raptá-la, e pô-la num avião com destino a Madrid.
A musa só tem um defeito: podia usar menos gel no cabelo. Mas enfim, errar é humano, as meninas da rádio compreendem, ainda assim...
:-)

Wednesday, September 19

Inferno #166: Limpezas.

A minha secretária é um amontoado de tralha e folhas soltas às quais não consigo pôr fim.
A tralha, és tu. A secretária, o meu pensamento.

Inferno #165: Porque Setembro ainda é um mês de Sol...

...os mal-humorados estão proibidos de sair à rua. Ou antes, se querem sair à rua, façam-no civilizadamente, sem histerias, e sobretudo sem tentativas de rebelião. A vossa época ainda não começou; vão para casa e voltem só lá para o fim de Outubro.

Inferno #164: A febre ERASMUS.

Num ataque de nostalgia, falei aqui do 'aniversário' da minha ida para ERASMUS. Acontece que não fui a única. Uma colega é que me fez reparar nisso. Parece que nesta altura do ano há muita gente a fazer um ano de ida para ERASMUS (e eu a pensar que era especial...). E parece que essa gente tem toda um blogue. E parece que toda essa gente, que tem um blogue, se lembrou de escrever sobre o aniversário da ida para ERASMUS.
Pior que a falta de originalidade deste blogue, é o facto de essa gente (supra-referida), detentora desses blogues, escrever coisas bem mais profundas e elaboradas do que eu.

O INFERNO errou (mas promete estar atento aos outros blogues [esses sacanas], para fazer tudo ao contrário).

Inferno #163: Os mistérios do mundo animal.

Era uma vez um papagaio que conheceu uns flamingos em Setúbal.
Quando chegou a hora da partida para os flamingos, o papagaio não quis ficar sozinho e decidiu "também vou"!
E foi mesmo. Voou de Setúbal até ao Senegal (mais de 2000 km). Quando chegou ao Senegal, não contente com a proeza de voar mais de 2000 km (o que é praticamente impensável para um papagaio), e com o facto de estar entre flamingos, encontrou a pièce de resistance perfeita: gritar 'Amor' na presença de um grupo de investigadores holandeses.
Fim.

Wednesday, September 12

Inferno #162: Há um ano.



Mais ou menos por esta altura, há um ano atrás, estava em Paris à procura de casa.

Foi a pior semana da minha vida (depois percebi que era uma coisa normal em Paris).

No fim dessa semana, uma daquelas coisas que só acontecem nos filmes (ou que só acontecem em Paris): alguém, conhecido de alguém, irmã de alguém, mãe de alguém tinha uma casa que servia perfeitamente.

Imagine-se, um studio no Cartier Latin.

O estúdio foi ganhando ares de casa. Vivi lá 4 meses.

Nunca me vou esquecer dessa casa e das vozes que a preencheram em dias. Penso nela às vezes, será que alguém lá mora neste momento? E se mora lá, será que vive realmente lá? E se vive, viverá com a mesma intensidade com que eu lá vivi? Não me parece possível. Acredito sempre que ninguém vive as coisas como eu. No fundo, sou só mais um grão de areia a dar ares de especial...

Inferno #161: Hoje.

Hoje foi dia de olhar para fotografias.
E dia de pensar "O que é que vem a seguir?"

Friday, June 29

Inferno #160: A transformação.

Kafka sabia muito...É frequente acordar e perceber que durante a noite me transformei num "monstruoso insecto".

Inferno #159: enternecimento.

"Hoje vou passar a noite a olhar para ti.", disse-lhe um dia. Falava verdade. Foi aí que percebeu como era apaixonar-se por alguém que nunca teria: ela nunca seria dele, ele nunca desistiria dela...

Thursday, June 21

Inferno #158: Gato e rato.

Ontem andou à minha procura.

Mas fui eu quem ganhou.

Inferno #157: Hoje percebi que...

...Vou passar o resto da minha vida a tentar escrever sobre o mundo.
(há profissões lixadas)


E a minha pergunta é: e se um dia eu conseguir, o que é que faço depois?